sábado, 26 de abril de 2008

Enfim à crônica

Enfim à crônica


A aula na faculdade corre como de costume. Os alunos chegam pontuais e atrasados. Os que estão presentes, nem sempre se encontram verdadeiramente presentes. Uns estão atentos. Outros, assim como eu, nem tanto. A voz do professor parece ecoar a quilômetros de distância. Por vezes lembra um zunido de mosquito. Daqueles bem irritantes, que por mais que se tente evitar, é impossível não perceber. O barulho das hélices do ventilador que cortam o ar, parecem o barulho de lâminas que cortam também a minha concentração.

Ponho-me então a procurar algo que no momento seja ao mesmo tempo permitido, não querendo chatear o professor, e que me cause prazer. Enquanto o cheiro da pipoca na manteiga, vindo do carrinho lá em baixo sob a árvore, sobe pelos ares e envolve todo o prédio, chego à conclusão de que me sobraram apenas as letras e as palavras para preencher meu tédio na sala quente. O Drummond, ou melhor, o livro do Drummond, já me forneceu a cota diária de bem-estar. So me resta então partir para o mundo das criações. Hum... Sinto cheiro de crônica no ar. Em meio a tantas coisas do dia-a-dia sujeitas a se tornarem temas de crônicas, nenhuma delas é capaz de escapar do pensamento pela ponta da caneta. Talvez a hora não seja apropriada. Fato que o murmúrio estridente da voz do professor insiste em tentar provar. Brasileira teimosa, não desisto nunca. Apelo então para a ajuda do Superior:

- Senhor, olhe por essa alma aflita. Ela tem as idéia e os meio para concretizá-las. Papel e caneta. Me dê, por favor, o que me falta nesse momento: a concentração!

Surpresa! O murmúrio estridente do professor junta-se a mais outros muitos murmúrios, ainda mais estridentes. Agitação e reboliço geral quando o professor da a aula por encerrada. Meu olhar atento observa ao redor e me mostra que não fui a única a me aventurar em fazer algo prazeroso nessa manhã. O ultimo aluno a sair me deixa a sós com o silêncio. Escutando somente a voz do meu pensamento, sinto as palavras escorregaram pelo meu braço e saírem livres na ponta da caneta. Enfim a concentração. Enfim a crônica!


Danyara Corona

Trinta e duas X Isabella Nardoni

Trinta e duas X Isabella Nardonia


Televisão, rádio, jornal. Estampado nas principais primeiras páginas dos jornais do país. Manchete de todos os noticiários da televisão. Assunto em pauta nas rodinhas de amigos. Em casa, na rua, na faculdade e no bar. Isabella Nardoni, a menina de cinco anos que caiu ou foi jogada do sexto andar de um prédio na Zona Norte de São Paulo, se tornou tema principal das conversas e da imprensa.

O país acompanha o desenvolvimento do caso da menina. Milhares de leitores, telespectadores e ouvintes aguardam ávidos pelo desenrolar do caso e pela prisão do pai e da madrasta, já condenados pela imprensa nacional e pela população. Vendo a televisão, e acompanhando todo o cerco dos meios de comunicação em volta de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta, é possível perceber a busca alucinada da imprensa para que eles sejam logo condenados e presos. Assim como a imprensa mundial fez com os pais da garotinha britânica Madeleine, desaparecida desde três de maio do ano passado em Portugal.

O noticiário recria a vida de Isabella. Mostra fotos da bela garotinha sorrindo. Depoimentos emocionados de parentes, professores, diretora e coleguinhas da escola. Vídeos de Isabella em teatrinhos. Desenhos feitos pelos amiguinhos em homenagem a menina. A reconstituição do crime. A solicitação da prisão preventiva do pai e da madrasta. A espera pela entrega dos acusados. E ate uma perseguição de helicóptero, feita por um programa da tarde, ao carro que supostamente os acusados usariam para se entregar à polícia.

Enquanto isso no Rio de Janeiro são registrados diariamente mais de 1,5 mil casos de dengue. Já foram confirmadas 67 mortes e 58 estão sendo investigadas. Trinta e duas das vítimas eram crianças com idades parecida com a Isabella. Trinta e duas crianças. Onde estão os depoimentos emocionados dos pais? Os parentes, amigos, professores? Onde estão as trinta e duas fotos dessas crianças vitimas não apenas de um mosquito, mas também, e principalmente, de um Governo incompetente. Que não foi capaz de usar dos recursos disponíveis para combater a dengue. Que diminuiu os investimentos contra o mosquito. Que deixou apodrecer centenas de carros que deveriam estar nas ruas, no combate à doença. Governo que foi nocauteado por um mosquitinho. Com certeza absoluta, raros leitores, telespectadores e ouvintes pararam para refletir um segundo sobre isso.

A mãe da menina Isabella, disse uma única frase, ao mar de jornalista que a engoliam na saída da delegacia, o que as mães das trinta e duas vitimas da dengue também gostariam de dizer: “Que a justiça seja feita” . Como eu não acredito na justiça dos homens, só me resta aguardar a justiça Divina para todas as vitimas. E que ela venha logo!

Danyara Corona

Cervejas, janelas e bactérias

Cervejas, janelas e bactérias


Ele se sentou na cadeira vazia diante de mim. Uma das poucas cadeiras que ficavam junto à porta. Estava lindo como sempre. Sua beleza se destacava no bar lotado de outras belezas que eu não era capaz de admirar. Ele pediu uma cerveja gelada e quatro copos. Encheu seu copo, o meu e de nossos outros amigos. Eu, à sua frente, apenas olhava pra ele, observando o movimento de sua garganta em cada gole que dava. Era como se não existisse nada mais interessante para se observar naquele momento. Ele alternava entre goles, palavras e expressões de sorriso. E que sorriso! Olhava para todos os lados, para todas as pessoas e quase pra mim.

Eu viajava, como sempre viajei em situações de silêncio. As minhas palavras eram engolidas, e silenciadas, misturadas a cerveja amarga, porém gelada, que ele havia me servido. Uma noite antes, viajando em silêncio mais uma vez, pensava em mim como um ser como os outros. Nada de muito especial. Matéria constituinte do universo, futuro adubo pra terra, refeição pra bactéria ou qualquer coisa um tanto mais nobre... Mas eu achava que não era apenas isso. E tentava fazer com que ele me visse, além disso. Ficava me imaginando como apenas uma alma. Não as almas penadas, dessas que vagam por ai, mas a alma que vive dentro de cada um. E já que dizem que os olhos são as janelas da alma, coloquei meus cotovelos sobre as janelas de meus olhos e olhava pra ele cobrando dele um simples olhar de retribuição.

O tempo foi passando, a cerveja acabando e ele só tinha olhos pro tudo. Tudo esse que inclui: o vai e vem dos garçons, o amarelo da cerveja, a mesa ao lado, e todas as outras coisas que me roubavam a oportunidade de aparecer. Os olhos voltados pra tudo so não se voltam pro nada que se resume a mim. Quase uma bactéria...

Eu, da janela, acenei com as mãos durante vários minutos sem retorno. Cansada, fui escorregando para fora da janela. Escorregando até que só restaram na janela pontas de dedos e cabelos. Ele terminou a cerveja e decidiu olhar pro que restara de mim. Se é que de um nada se resta algo. Me perguntou sorrindo no que eu estava pensando durante aqueles minutos de silêncio. Eu rapidamente respondi:
- Bactérias.

Danyara Corona