sábado, 26 de abril de 2008

Cervejas, janelas e bactérias

Cervejas, janelas e bactérias


Ele se sentou na cadeira vazia diante de mim. Uma das poucas cadeiras que ficavam junto à porta. Estava lindo como sempre. Sua beleza se destacava no bar lotado de outras belezas que eu não era capaz de admirar. Ele pediu uma cerveja gelada e quatro copos. Encheu seu copo, o meu e de nossos outros amigos. Eu, à sua frente, apenas olhava pra ele, observando o movimento de sua garganta em cada gole que dava. Era como se não existisse nada mais interessante para se observar naquele momento. Ele alternava entre goles, palavras e expressões de sorriso. E que sorriso! Olhava para todos os lados, para todas as pessoas e quase pra mim.

Eu viajava, como sempre viajei em situações de silêncio. As minhas palavras eram engolidas, e silenciadas, misturadas a cerveja amarga, porém gelada, que ele havia me servido. Uma noite antes, viajando em silêncio mais uma vez, pensava em mim como um ser como os outros. Nada de muito especial. Matéria constituinte do universo, futuro adubo pra terra, refeição pra bactéria ou qualquer coisa um tanto mais nobre... Mas eu achava que não era apenas isso. E tentava fazer com que ele me visse, além disso. Ficava me imaginando como apenas uma alma. Não as almas penadas, dessas que vagam por ai, mas a alma que vive dentro de cada um. E já que dizem que os olhos são as janelas da alma, coloquei meus cotovelos sobre as janelas de meus olhos e olhava pra ele cobrando dele um simples olhar de retribuição.

O tempo foi passando, a cerveja acabando e ele só tinha olhos pro tudo. Tudo esse que inclui: o vai e vem dos garçons, o amarelo da cerveja, a mesa ao lado, e todas as outras coisas que me roubavam a oportunidade de aparecer. Os olhos voltados pra tudo so não se voltam pro nada que se resume a mim. Quase uma bactéria...

Eu, da janela, acenei com as mãos durante vários minutos sem retorno. Cansada, fui escorregando para fora da janela. Escorregando até que só restaram na janela pontas de dedos e cabelos. Ele terminou a cerveja e decidiu olhar pro que restara de mim. Se é que de um nada se resta algo. Me perguntou sorrindo no que eu estava pensando durante aqueles minutos de silêncio. Eu rapidamente respondi:
- Bactérias.

Danyara Corona


Nenhum comentário: