Enfim à crônica
A aula na faculdade corre como de costume. Os alunos chegam pontuais e atrasados. Os que estão presentes, nem sempre se encontram verdadeiramente presentes. Uns estão atentos. Outros, assim como eu, nem tanto. A voz do professor parece ecoar a quilômetros de distância. Por vezes lembra um zunido de mosquito. Daqueles bem irritantes, que por mais que se tente evitar, é impossível não perceber. O barulho das hélices do ventilador que cortam o ar, parecem o barulho de lâminas que cortam também a minha concentração.
Ponho-me então a procurar algo que no momento seja ao mesmo tempo permitido, não querendo chatear o professor, e que me cause prazer. Enquanto o cheiro da pipoca na manteiga, vindo do carrinho lá em baixo sob a árvore, sobe pelos ares e envolve todo o prédio, chego à conclusão de que me sobraram apenas as letras e as palavras para preencher meu tédio na sala quente. O Drummond, ou melhor, o livro do Drummond, já me forneceu a cota diária de bem-estar. So me resta então partir para o mundo das criações. Hum... Sinto cheiro de crônica no ar. Em meio a tantas coisas do dia-a-dia sujeitas a se tornarem temas de crônicas, nenhuma delas é capaz de escapar do pensamento pela ponta da caneta. Talvez a hora não seja apropriada. Fato que o murmúrio estridente da voz do professor insiste em tentar provar. Brasileira teimosa, não desisto nunca. Apelo então para a ajuda do Superior:
- Senhor, olhe por essa alma aflita. Ela tem as idéia e os meio para concretizá-las. Papel e caneta. Me dê, por favor, o que me falta nesse momento: a concentração!
Surpresa! O murmúrio estridente do professor junta-se a mais outros muitos murmúrios, ainda mais estridentes. Agitação e reboliço geral quando o professor da a aula por encerrada. Meu olhar atento observa ao redor e me mostra que não fui a única a me aventurar em fazer algo prazeroso nessa manhã. O ultimo aluno a sair me deixa a sós com o silêncio. Escutando somente a voz do meu pensamento, sinto as palavras escorregaram pelo meu braço e saírem livres na ponta da caneta. Enfim a concentração. Enfim a crônica!
Danyara Corona
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